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ao menor sinal de luz

2 de novembro de 2021

todos os meus dentes rangem quando eu penso. um porto que antes era abarrotado de andorinhas hoje é um único barco uma única nota no piano um único grão. todos os meus dentes quebram quando eu falo. e se eu não falasse? pouparia quem da minha boca ouvisse os únicos dentes que ainda sobrarão.

não-alguém

14 de março de 2021

sabia-se pouco como e por que era daquele jeito, o sujeito, pele clara, cabelos queimados por sol, os dentes ranzinzas de natura, carregava um toque irônico: ora primitivo, ora elevado, no mais cru que tocava, entortava a concepção do que concebia. em hora qualquer que quisesse, toda situação diante dos seus olhos escorria como luminosidade e ruído que não necessitava ser tangível aos sensores da limitada percepção. era comum, pois tanto sentia e retratava para, enfim, desperceber. por inúmeras e incontáveis vezes, tinha cavernas as quais fugir. era intocável a sua retroação. sempre havia maneira de reaver, de reinventar e novamente retroceder. era tão atento quanto dificultoso, tão suportável quanto exprimível; nunca foi o que acreditara ser -- desde o mísero toque na maçaneta, bobo por seu tamanho, tinha o seu gigante símbolo, amuado ou empalidecido, nada havia por fim a não se mudar. a existência, pra criatura que era, não tinha por nada o existir. tudo era fosco. morno por natureza. natimorto por consequência. a cadeia dos acontecimentos, dentro ou fora do julgar incômodo das coisas que se sucederiam, não tinha fim nem começo. quica meio; pudera medo. acendeu outro cigarro -- a chama tosca queimando lentamente o papel branco do palito. desintegrava-se. também em lamurias por, ainda assim, não dissociar-se da conturbação mental imediatista da senciência que o dotava. a fumaça, por sua vez, havia de desvanecer. dela, sentia apego e inveja; e nunca foi de envaidecer-se por meras reações e escolhas nitidamente atentadas e atingíveis, além de qualquer conclusividade plausível que lhe surgia sobre a mente de sua exatidão final -- a bagunça que pensa não teria fim. às 5h, acordava. percorreu os olhos pelo que rodeava e nada parecia ter sido posto no lugar que estava. argumentou com o ar, Agora? Hoje?. era um dia útil da semana, e a cama estragada ainda parecia cuspi-lo na vertical da insônia. luz acesa, tv ligada, o barulho do dia que o assimilava fazia eco no cubículo cinza e as mesmas goteiras de sempre não davam espaço pro divagar corroído da criatura. às 6h se olhava no espelho sem perspectiva de que algo enxergaria senão uma lembrança contrária. o nada era cheio de algo às 7h.

houve um tempo..

6 de agosto de 2019

houve um tempo. e nesse tempo as andorinhas não voavam mais. não haviam chuvas nem sois. tudo era seco e molhado, tenro e grosso. de dentro, era como se o formato das coisas não passassem de Vulto. esse marasmo -- essa sopa -- fungava o bafo quente todas as noites em meu ouvido. Não olhe agora, Luzo, mas tem um cão debaixo da sua cama. Ele vê. e via. pálidos ossos se contorcendo, de vez em quando, por nada. Quer sentir seu cheiro?, perguntava. Quer saber de onde sai toda essa lama asquerosa que pinga de suas mãos? eu não queria. pegadas são fósseis, apenas. me convenço assim...

p (página)

25 de janeiro de 2019

derreteram-me os lábios e me obrigaram a não vestir mais o meu rosto quando vou falar sobre meus cacos e problemas de cama fomes e discos chatos eu não acredito no que digo me beija e me rouba os olhos de novo o fracasso me molha as mãos demoro demais no violão alguma gota pinga e eu não escuto. faz favor? troca a pintura da parede; essa ta choca me lembra a janela dela e quando ali fiquei esperando pra que eu fale.

quando a areia desponta o mar inteiro

6 de novembro de 2018

a cor estranha do céu já tinha sumido quando o estúpido apostou sua última moeda. caiu e rolou do mesmo jeito que podia cair e rolar. e o óbvio não podia ser tão certeiro assim na predisposição dos acontecimentos e suas fraquezas ocasionais: o estúpido já havia se conformado com a derrota antes mesmo de te-la nas mãos. a partir daí o psicossoma fez seu trabalho. e do ofício fez justiça, aliás. há muito passara a hora de ir tomar seus bocados a sua cama de palha debaixo do beco. além de estúpido, o estúpido agora era derrotado. com todas as letras por extenso tatuando sua áurea e por onde quer que passasse, a partir dali, até o fim de seus densos ossos. o estúpido derrotado se juntava todas as noites na mesma posição a fim de caber na fina cama os fios de cabelo e os dedos todos do pé, porque tudo ali importava, na cabeça dele. os estúpidos fios de cabelo e os estúpidos dedos do pé. agora estúpidos e derrotados fios de cabelo e dedos do pé.

acho que ta na hora de parar de fumar

22 de outubro de 2018

literalmente as carruagens cantavam ao vento. história abastada. duas ou tres sombras conversando. não da pra se ouvir muito, assim de longe. tenho que me deslocar até o solavanco da porta, meio que entre os espaços-vacuos que se dão sempre nos espaços-vacuos. aí eu acendo um cigarro, que e pra espantar de cheiro os malogrados, coisa de superstição boba. bom, cigarro aceso, espaços-vacuos e as sombras conversando. agora há de se diferenciar palavras. gritos, na verdade. e como uma discussão. uma tece a outra e a outra tenta se destecer tecendo a outra, num jogo. uma joga a outra na parede e depois se vê que, na verdade, nem parede tinha. e. meio confuso mas e isso aí. eram sombras conversando. você queria o que? ''eu já fui a lojas assim antes'', disse a primeira. ''e o que meu cu tem a ver com tuas calças?'', retrucou a segunda, até educadamente, o que me fez rir. não dava pra segurar, desculpa. o negócio e que a discussão parou aí porque eles me perceberam ao tom da risada. os dois começam a rolar no chão de zombeta. porra, SOMBRAS?, eu pensei. revelei meu corpo inteiro ao portal do cômodo, mas pareceu não adiantar muito. os caras eram duros. dei o último trago e pisei no cigarro. vem ca, que palhaçada e essa de sombras falarem aos ventos como num sonho de velho o que se da na telha sem nem respeitar os ouvidos alheios?, perguntei. mais risadas. acho que ta na hora de parar de fumar.

são os outros que não me resolvem

16 de julho de 2018

doco-me as orelhas pra ouvir melhor o chacoalhar das minha veias. estamos sós, dizem. mas já? eu fiz tudo certo, retruco. não importa, a voz estranha repele, me deixando só, de novo.

exceto aos dias treze

20 de fevereiro de 2018

e eu to dormindo sozinho e a cama e o espelho e tudo que eu visto não me convence de que eu preciso dormir e de novo eu não durmo. mas, calma, passarinho, a noite e fria mas e calma e serena exceto aos dias treze, exceto aos dias treze.

carolina

20 de fevereiro de 2018

deitada se sentia mais. enquanto decidia se ia se levantar ou não, alimentava os ouvidos de pensamentos altos. eu me basto, pensava, eu me basto, porra. levantou-se. de novo a tontura da corriqueira overdose de café e os mesmos textos soltos marcados na madeira da mesa velha, também sobre efeitos de overdose de café. mentiu de novo pra si, eu me basto, porra. copo, geladeira, goles d'água e de, novo, cadeira. eu me basto, porra. não tinha tirado da cabeça as fotos que tinha tirado das molduras, também velhas, por puro capricho -- imaginava a existência como conjunto de memórias, novas e velhas, bonitas e feias, pequenas ou grandes e, assim, não se acostumaria com nada que não fosse seu. meu abajur, minha viagem de fim de ano pro litoral, minha cama velha, meu medo fútil de baratas, minha caneta amarela, meu homem. meu homem? porra, eu me basto. porra. não se permitia dissociar a ideia do que não mais tinha e não desaprendia de jeito nenhum o que tinha aprendido sobre existência. não queria se sentir vazia e queria que tudo fosse parte dela. todas as reticências e todos os piores choros do mundo e todos vocês me olhando desse jeito e por que vocês estão me olhando desse jeito? mas não havia ninguém. nem mais o espelho, também velho, na parte de trás da porta do guarda roupa restara. não era mais questão de se sentir existindo e nem de não existindo, era muito mais denso e muito mais doentio que isso. se sentia morta por justamente ter aceitado que tinha ressuscitado. de novo. lembrava que a psicóloga dizia que ela, por si só, se bastava. não pense assim, carolina, você se basta, e só colocar na cabeça que, depois de tudo posto, a lembrança de que você se basta será inevitável, dizia. eu me basto, porra. porra. mais uma lágrima solitaria que rolava devagarzinho como que não querendo nada pela maçã do rosto marcado de cravos. e morreu na boca.

porque tem que ser assim

20 de fevereiro de 2018

havia um homem deitado em jornais na minha cabeça e cada vez que se levantava os jornais voavam bagunçando meu campo de visão em notícias e tablóides e rostos familiares mas nem tanto assim.

o que música nenhuma faria

12 de fevereiro de 2018

e era algo que eu queria tanto que acabou por, como farinha na mao de um inocente, escapar-me toda toda ela em seus desenhos e olhos gigantes a maquiagem ainda borrada do choro de explicação o peso do meu corpo sobre o colo e só porque eu precisava de colo só porque eu tive que precisar de colo só porque eu tive que precisar só porque eu tive que só porque eu tive só porque eu estava só.

A noite mais Clara do ano.

29 de novembro de 2017

Como o sol poente que desgruda o dia da noite tornou-se lua do meio-dia. Permaneceu ali, ombros duros, pelos quentes, sem pensar em dedicar-se a imensidão, simples imensidão, da paisagem. E em meio ao aperto da multidão de cores que dos lumes brotava súbita, dancava com os olhos o momento como uma noiva na ponta do pé ou como o noivo de joelhos.

eu sei que você sabe

21 de novembro de 2017

a poesia e sobre mentira. todo mundo sabe. até você. e eu sei que você sabe. não importa o quanto o meu dedo trema até eu te apontar o lugar que eu estava quando escrevia todas aquelas juras pueris, nos dois na frente do espelho, dois nos presos demais. cegos demais.

o enquanto

20 de novembro de 2017

há uma beleza tão imensa no atual estado das coisas que despedaca sem querer em mim algumas esperanças naturais de que são entupidas nos homens. o 'enquanto' e tão mais substancial e presente (de presença, mesmo), tão mais claro e sórdido que os demais estados da existência, tão mais apaixonante, tão mais demoníaco, tão mais delineador de vultos estranhos, tão mais perigoso... mas perigo e necessario, se for parar pra refletir. não necessario pra junção do medo com a idealizacao do mesmo. não necessario pra quebra de espirito contaminado pelo foda-se. e necessario pelo ying yang das coisas, do equilíbrio que se assume cada contrario ou cada semelhanca, principalmente pelo formato de que as coisas acontecem na nossa cabeça -- ainda, e bem-ainda, humana. tatear as coisas e bem mais interessante que a concepção de tatear, ne? sentimentos como saudade, esperança, medo e rancor são só prendimentos que nos fazem seres encadeados pela sensação de que somos mais que criaturas do presente. e somos criaturas do presente. não e só mais sobre carpe diem ou sobre um viver-sem-esperança junto dum toque hippie. e só mais uma divagação sobre a simetria, excelência, proporção e beleza infinita e insonte desse desmanchamento da nossa linha do tempo...

ode ao medo

30 de outubro de 2017

deita-se, cru meio-deu-do os mesmos talheres de antes os mesmos talhares de agora 'a sombra do edificio tem gosto de chocolate branco' me da um chocolate branco?

roger

25 de outubro de 2017

roger ouvia meio de olho-canto a confissão gradual do desconhecido. perdão, ele pensava, mas eu não consigo não reparar nos seus dentes. -- você ta reparando nos meus dentes, garoto? em alguns filamentos do pensamento que se aparece febril a priori, a realidade chega a quase desaparecer ao dar espaço prum fenômeno maravilhoso -- mas pouco visto assim -- o medo. -- não... em outros filamentos e a propria febre que dita qual o movimento dos tais filamentos já estendidos sobre o teu 'campo de visão'. o desconhecido sorriu do melhor jeito que aprendeu.

o que me responderam as vozes

18 de setembro de 2017

Precisava de um afã pra continuar sendo o que e, menino. Precisava deixar de dedilhar as tuas manias na roupa limpa dos outros, ou cortar devagar os ouvidos de quem te ouve toda vez que mencionam o nome dela. Você, menino, ta onde agora? Cadê sua chave de casa? Por que você inda ta aqui se não sobrou nada em teus bolsos e tu ainda barulha inocentes por cigarros? Cadê você? Cadê você? Acordo do mesmo jeito de todos os dias. Tremendo de tonteira, dois olhos inchados pelas visões do dia anterior e a boca fedendo a burrice. Cadê você?, o oboé da minha cabeça gritava. Abasteco a caneca com o café. Cadê? Cuspo tudo. O fedor inda sulca minha garganta. O oboé tilinta. Remédios -- mãe, cadê o torsilax? Cadê você? Sento -- e melhor divagar o divagavel, mas devagar. Reabasteco a caneca e, de novo, me acostumo comigo.

noite infinita

20 de maio de 2017

a isca ameaçou pouso, era noutra flor descer. miro terno: imaginei que fosse contraste, mas nem isso teve coragem de ser. elevador, 4 andar; frio de cem graus pulou no mar o clarão jurou -- era melhor descer os degraus.

rápida questão de cadarço

3 de maio de 2017

espalhava dor no gramado ao mesmo tempo que desvencilhava o vento deus?, a menina com a rosa perguntou diabo, os olhos da criatura responderam.

O Jogo

27 de abril de 2017

A digestão crua da minha pele se tornava mais devagar a medida que o cigarro era consumido. Troquei de mao o palito: perdi o jogo. Antes, conseguia canalizar a ansiedade, o tédio, o simples prazer de ter um hábito meu, a poeira da cabeça, o desânimo da existência ou todos esses juntos em música. Hoje, a música já não sustenta a mesa corroida pelos cupins: se englobou no vício e tudo parece ser só uma coisa. Fodeu.

tão rápido e corriqueiro

12 de abril de 2017

do tamanho do mundo respirava esquivo o vento noturno. impediu-se de olhar pra fundo de si do mesmo jeito que sempre fazia a essa hora, renegar o intocável. os dedos doiam, Deus pra que tantas perguntas? mordeu o cigarro, deu no no cadarço. saiu.

turvo-espelho

27 de março de 2017

no que bagunça o corroído desalubre do desatinado nada antes do tiquetaquear prostrado, fora do que talvez me permearia manso não fosse tu tão sujo, desabrigaria sorrateiramente as nuvens do abstrato teu. insalubre no desatino, desabafo calado, te vi destilado, deste lado, e fui seco abrigo num grito contido, alquebrado em fagulhos, te transmutei ao meu alado lado.

Corcunda

26 de março de 2017

Sujei-me da dor quieta, intragável, café frio; Corri atras doutros suplícios e deixei-me em tudo roer aos ossos -- rejeitei cada esqueleto meu.

Vício

20 de março de 2017

bebo do maço de cigarros na mesma rapidez em que desço as escadas cai?, eu penso, deixando a porta do prédio se fechar atras de mim.

Almofadas Frias

9 de março de 2017

Quando finalmente saiu da chuva ainda podia sentir seus pingos miúdos dentro do salão. O som de seus passos ecoava o invólucro alagado amiúde que se tornara refúgio. Adiante, a beldade obscura do vislumbre de algum sentido fez valer-se vivida e eruptiva num fervor adentro. Perdigueira promessa, pensou, Por que tal perdigueira promessa?

O Choro

6 de março de 2017

dos lépidos aninhamentos que de ti faziam-se grandes demais prum tacanho eu, dimanam-se memórias, súbitas até demais pro adequado salivar, mastigar, engolir, digerir, entupir-se, desentupir-se e voltar ao ciclo que, infelizmente basial, e o que me faz sorrir quando me lembro de ti.

O Tudo-nada

23 de fevereiro de 2017

Os fracos espécimes de fótons que da lâmpada luzem num tom de amarelo-areia flutuam sobre o breu noturno. Aqui, o contraste do negro do céu junto do ecoante ruído cinza das gotas da chuva nada perturba os sórdidos devaneios do quebra-cabeça cosmico de minha propria cabeça. Ainda surdo, fecho os olhos na busca irrefreavel da cegueira que tudo ouve. O frenesi nirvânico. O parto do subúrbio quase inexistente das origens da minha dor. O barulho, mesmo que ínfimo, das minhas veias, artérias e capilares sendo desligados num crack seco. Mas, ainda assim, perco-me no caminho. Tanto que acabo me misturando, com tudo de mim, nAqueles cinzas pingos d'água do outro lado da janela.

em silêncio

6 de fevereiro de 2017

encosto meu umbigo sujo no teu, a medida que deixo a poeira do teu pescoço conhecer o meu nariz. e tento, com meus dentes, inda lentos e fracos, mergulhar fundo em tua derme, até sua pele morena-rota amanhar o verde-sabao do meu céu da boca.

algumas

20 de janeiro de 2017

algumas cordas do meu cerebro às vezes se soltam. num solavanco fraco, lento e pio, eu sinto os pequeninos barbantes, aqueles que controlam meu raciocínio, ansiedade, concentração, fome e até a temperatura do meu peito, se desligarem, num bonito lapso de confusão. assim, frágil, depois do meus cinco segundos de humano semi-morto, tossindo mil perdões, eu me recomponho breve, e finalmente pergunto "como vais pra casa?"

eu precisava de você

6 de janeiro de 2017

eu precisava de você na minha casa, na minha cama, no meu sofa eu precisava de você no meu sanduiche, no meu sorvete de flocos nos meus cigarros, nas revistas baratas e até nas caras também. eu precisava de você deitada num puf de dois metros

lembrei de ti

21 de novembro de 2016

Eu estava com minha cabeça encostada no canto do ponto de ônibus quando a vi. A partir daí, tudo pareceu se completar. O sol já quase desaparecido iluminando a rua, as luzes da avenida olhando pra mim, o cheiro do perfume do dia, o formato do céu -- todos versos de um grande soneto, cujo titulo era ela.

Caindo e nunca espatifando

16 de setembro de 2016

Era tarde da noite quando as pegadas haviam desaparecido. Os gritos eufóricos de medo, como saindo de gargantas queimadas, pareciam não existir mais; os corvos já não cantavam; o cheiro sumiu. Silêncio, ele pensou, até que enfim silêncio. Tirou as mãos que tampavam os ouvidos e saiu do quarto, de fininho. O menino, pardo de tanta sujeira, sujo de tanta tontura e tonto de tanta sede, sozinho naquele nauseante ambiente, caminhava sem saber para onde. Mas algo em seus pés simplesmente o mandava seguir em frente, descer o lance de escadas, atravessar o corredor da sala de estar e chegar até o porão. Acendeu as luzes num jeito automático, como se fosse hábito a forma de todos os seu dedos se encaixarem perfeitamente no interruptor. O que se revelava diante dos pequeninos olhos míopes agora sem óculos, era puro. Jocosamente puro. No chão, estavam jogados mistura de escalpo e lama, pedaços de pele podre, dentes e suas mandíbulas; pano velho, fedor pestilento, asqueroso de morte, medo e sangue. O menino sorriu. Lembrava quem era.

Demência

30 de agosto de 2016

Junto as mãos numa cortesia franca a babilônia caída. Ao derredor dos ombros tortos de escoliose, dores impulsionam minha ânsia ao ódio de tudo. Demência, e fácil pensar assim; simplificar a bagunça no estômago ou o estranho chacoalhar das mãos. Na busca de respostas ao vazio das perguntas, pinto um quadro que ninguém entende. Demência, o menino já era desbilotado e os pais não educaram direito. Uma pena, tão inteligente! Ouço com asco nos dentes, escorrendo baba da boca. Eu não sou assim, juro!, tento explicar a minha mãe. Eu posso te fazer feliz, maezinha, só mais alguns meses e tudo se resolve. Nervosa de tanto chorar, com o cabelo bagunçado e o cigarro apagado, ela me olha com desdém. Me desculpa!, era só o que eu queria gritar. Mas a culpa talvez nem seja minha, às vezes penso assim. Mas só às vezes.

grudar

27 de agosto de 2016

Da janela do meu quarto ainda da pra sentir os sons que se dissiparam na escuridão. A tranquilidade que rapidamente associo a tardes de sábados e seus abracos infindáveis; me afundar na cama junto contigo. Vejo a lentidão de tudo que aconteceu numa rapidez assustadora, Por que não te tenho mais? Não se pode exagerar nas flores, eles disseram. Mas por que não exagerar nas flores, se isso e tudo que posso fazer? O barulho que nossas bocas faziam ainda repito nas lembranças, numa tentativa va de lembrar do teu rosto. Do vidro de você que havia em mim ainda restam cacos, soltos cacos. Pelo menos cacos, penso. Escrevo teu nome numa pedra, jogo-a no mar, Tomara que afunde.

montanhas verdes e gigantes gritando nomes que nunca ouvi na vida

19 de agosto de 2016

boa parte do teu couro cabeludo ainda esta entre meus dedos. ao mesmo tempo que assustado, estou fascinado com aquilo tudo. as infinitas vozes que circulavam meu estômago numa confusão de gritos se calaram por completo. pela primeira vez em oito anos eu lembrei como era sentir paz. nem lembro teu nome e seu rosto fora difícil de decorar. roubei teus cigarros e ainda tem sangue seu na minha meia, desculpa. mas esta la, tudo acabou e a única lembrança que restou de ti são esses finos fios de cabelo entre meus dedos.